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Futebol, Memória e o Registro da História: Uma Análise da Crônica Esportiva em Divinópolis sob a Ótica do Dia do Jornalista.

Por: Marlon Ferreira


A curiosidade pelos lugares onde a memória se cristaliza e se refugia está ligada a este momento particular da nossa história. Momento de articulação onde a consciência da ruptura com o passado se confunde com o sentimento de uma memória esfacelada, mas onde o esfacelamento desperta ainda memória suficiente para que se possa colocar o problema de sua encarnação. O sentimento de continuidade torna-se residual aos locais. Há locais de memória porque não há mais meios de memória (NORA, 1993, p. 7).

A análise da crônica “Corinthians x Guarani na Estação Velha”, publicada em 13 de julho de 1969 no jornal A Semana, revela como a cidade de Divinópolis transformou o Campo do Ferroviário em um desses locais de cristalização da memória. O autor, Francisco Pires, fundamenta seu relato em uma ruptura temporal, observando que o sentimento de continuidade tornou-se residual ao registrar que “há uns cinco anos que assistimos à última partida no Campo do Ferroviário, na legendária 'Vila Famosa” (PIRES, 1969). Este exercício de narrar o tempo em que se vive é a essência do ofício jornalístico, celebrado anualmente no dia 07 de abril, o Dia do Jornalista.

Ao tornar públicos os acontecimentos esportivos e dar visibilidade ao debate social, o jornalismo contribui para a vida democrática, registrando o presente e revelando as ideias que atravessam a sociedade. O futebol, nesse contexto, deixa de ser apenas uma modalidade esportiva para se tornar uma prática definidora da cultura local. Como o esporte permitia articular diferentes identidades, ele se estabelecia como um código compartilhado:

Como código compartilhado por grupos diversos, o futebol parece adequar-se com perfeição a esse propósito. Reunidos no Rio de Janeiro [e por extensão em outras regiões do pais] dos primeiros anos do século indivíduos de variadas origens e condições sociais que tinham nesse jogo um de seus principais pontos de contato, o futebol constituía-se em um eficaz meio de comunicação entre esses grupos diversos. Mais do que investigar a experiência deste ou daquele agrupamento, trata-se de buscar o modo pelo qual parcelas diferentes e até antagônicas da sociedade fizeram do futebol um instrumento de expressão e de mediação de seus conflitos (PEREIRA, 1998, p. 5).

A crônica de Pires exemplifica essa mediação ao descrever o embate entre o Ferroviário e o Flamengo local. O autor assume o papel do especialista que procura “retraduzir e ordenar para uma narrativa supostamente linear e universalista [...] o processo ritualístico” em evento jornalístico (TOLEDO, 2000, p. 8). Aquilo que em 1969 era notícia, tornou-se, com o tempo, documento essencial para compreender a história regional, reforçando o conceito de que a notícia de ontem é a história de hoje. Sobre a organização das forças esportivas no dia da publicação, a reportagem detalha:

O turno do torneio “Cel. José Guilherme”, patrocinado pela LMD, tem sequência na tarde de hoje, quando, em cotejo bastante promissor, estarão medindo forças, em “Mendes Mourão”, Corinthians e Guarani, com os corintianos tentando sua primeira vitória no dito torneio e os bugrinos tentando conservar a co-vice-liderança, no prélio de logo mais, às 15:30 horas (PIRES, 1969).

Essa distribuição geográfica — o Guarani no bairro Porto Velho e o Ferroviário na Vila Operária — demonstra como o futebol organizava a sociabilidade urbana. No Centro de Memória da UEMG – CEMUD, esses registros ganham um significado profundo. Ao preservar jornais antigos em sua hemeroteca, o Centro resguarda não apenas resultados de jogos, mas os rastros das discussões de uma época. O esporte tornou-se a verdadeira “paixão das massas urbanas” (HOLLANDA, 2022, p. 78), e o jornalismo permitiu essa massificação. Além disso, folhear essas páginas permite perceber as transformações da língua ao longo do tempo revelando mudanças culturais. Segundo Toledo, o estádio e sua cobertura são locais onde: “Aí encontramos aqueles que sustentam e viabilizam a partida em si, os profissionais, aqueles que adensam à mesma os níveis de emoção que ela suscita e engendram valores e formas de sociabilidade específicas, o conjunto genérico de torcedores” (TOLEDO, 2000, p. 8).

Por fim, o texto de A Semana funciona como um manifesto político-social de resistência. O cronista compreende que o enfraquecimento do apoio popular ameaça a preservação de um patrimônio imaterial da cidade. O apelo final de Francisco Pires — “Torcedor amigo: Vamos soerguer nosso futebol, comparecendo aos jogos. O seu clube precisa de você!” (PIRES, 1969) — é um chamado à manutenção de uma sociabilidade que transcende o campo. Ao organizar e disponibilizar esses documentos para pesquisa, instituições como o CEMUD garantem que as narrativas do passado permaneçam acessíveis, cumprindo a missão de preservar a memória da sociedade.

Figura: Festividade no Campo do Ferroviário (1900) - Portal Em Redes – Porto de Memória do Centro-Oeste Mineiro.

REFERÊNCIAS

CENTRO DE MEMÓRIA DA UEMG – CEMUD. Publicação dia do jornalista. Divinópolis: UEMG, 2024. HOLLANDA,

Bernardo Borges Buarque de. Modernismo, regionalismo e o lugar do futebol na ficção de José Lins do Rego: uma leitura de Água-Mãe. Projeto História, São Paulo, v. 73, p. 72-101, jan./abr. 2022. NORA,

Pierre. Entre Memória e História: A problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, dez. 1993. Tradução de Yara Aun Khoury.

PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro (1902-1938). 1998. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1998.

PIRES, Francisco. Corinthians x Guarani na Estação Velha. A Semana, Divinópolis, 13 jul. 1969. TOLEDO, Luiz Henrique de. Lógicas no Futebol: dimensões simbólicas de um esporte nacional. 2000. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000.

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